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    Os conflitos contemporâneos deixaram de se restringir ao campo físico para se expandirem ao ciberespaço, onde a informação se torna arma, recurso estratégico e terreno de disputa. Este artigo busca analisar como os diferentes tipos de sociedades e as teorias sobre comunicação moldam a compreensão das operações de informação, destacando a centralidade do meio digital e o impacto da guerra cognitiva. A evolução da humanidade, marcada por transformações profundas nas estruturas sociais e tecnológic
     

Operações com Informação nos Conflitos Atuais: Do Industrial ao Ciberespaço

24 de Setembro de 2025, 21:38

Os conflitos contemporâneos deixaram de se restringir ao campo físico para se expandirem ao ciberespaço, onde a informação se torna arma, recurso estratégico e terreno de disputa. Este artigo busca analisar como os diferentes tipos de sociedades e as teorias sobre comunicação moldam a compreensão das operações de informação, destacando a centralidade do meio digital e o impacto da guerra cognitiva.

A evolução da humanidade, marcada por transformações profundas nas estruturas sociais e tecnológicas, redefine continuamente a natureza dos conflitos. Se a Sociedade Industrial moldou guerras de larga escala e confrontos frontais, a transição para a Sociedade da Informação e, mais recentemente, a Sociedade em Rede e a Sociedade do Conhecimento, transferiu o campo de batalha para um novo domínio: o ciberespaço.

A Revolução da Informação não apenas acelerou o fluxo de dados, mas também reestruturou o poder, tornando a informação uma arma estratégica. Nesse contexto, os meios de comunicação de massa, que em tempos passados eram vistos como ferramentas de propaganda unilateral — um conceito ecoado na Teoria da agulha hipodérmica (ou Teoria da bala mágica) —, agora operam em um ecossistema complexo e interconectado. Esta teoria, que postulava que a mídia inoculava ideias diretamente na mente de uma audiência passiva, é insuficiente para descrever o ambiente de hoje, onde a informação flui em múltiplas direções e a influência é sutil, dispersa e multifacetada.

A Gestão do Conhecimento e a Guerra Cognitiva emergem como disciplinas essenciais. Não se trata apenas de controlar a informação, mas de moldar a percepção e o entendimento do inimigo, da população e das próprias forças. O sociólogo Manuel Castells, em sua visão sobre as sociedades e a guerra cognitiva, reforça o estatuto de ameaça com que não poucos governos percebem a presença da rede de redes. Para ele, as redes sociais, embora não sejam a causa original da polarização, a amplificam e reforçam de maneira extraordinária, criando um desafio regulatório para os governos que buscam controlar a livre expressão e o protesto.

A natureza dos conflitos contemporâneos, cada vez mais assimétricos e irregulares, é um tema central na obra de diversos autores. Em “Guerra irregular: Terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história”, Alessandro Visacro demonstra como os confrontos modernos se afastaram das guerras convencionais entre estados, adotando táticas de terrorismo, guerrilha e resistência. A complementaridade de sua obra “A Guerra na era da informação” ressalta como as novas tecnologias de comunicação e os ataques cibernéticos se tornaram parte integrante do arsenal de atores estatais e não estatais, tornando a fronteira entre guerra e paz cada vez mais tênue.

Nesse cenário, as operações de informação ganham uma importância sem precedentes, misturando capacidades como inteligência, guerra cibernética, guerra eletrônica e operações psicológicas. O Coronel Márcio Saldanha Walker, em seu livro “Operações de Informação: Névoa de Conceitos”, explora a dificuldade de se estabelecer uma compreensão clara sobre esse novo domínio. A “névoa de conceitos” que envolve as operações de informação reflete a natureza multidimensional e intangível da guerra no ciberespaço, onde a distinção entre paz e guerra, ataque e defesa, é frequentemente borrada.

A guerra moderna não é mais travada apenas no ar, na terra ou no mar, mas também na dimensão informacional, no seio da sociedade em rede. O conceito de “multidão”, explorado por Michael Hardt e Antonio Negri em “Multidão: Guerra e democracia na era do Império”, oferece uma perspectiva sobre como a resistência e a guerra não dependem mais de estruturas hierárquicas, mas de redes descentralizadas. No ciberespaço, a multidão pode ser tanto uma força de resistência democrática quanto um ator em conflitos irregulares, utilizando a conectividade global para se organizar e disseminar sua mensagem, desafiando a hegemonia e o controle estatal.

A trajetória da sociedade industrial à sociedade do conhecimento revela que a informação deixou de ser mero suporte para se tornar elemento central do poder. No ciberespaço, operações de informação não apenas acompanham os conflitos, mas os definem. As redes, como alerta Castells, são vistas como ameaças por governos justamente porque desestabilizam estruturas tradicionais de controle. No cenário atual, compreender a guerra cognitiva e os mecanismos de influência informacional é indispensável para a segurança nacional, a soberania e a liberdade das sociedades em rede.

A compreensão dos conflitos atuais exige uma análise que vá além dos métodos tradicionais de guerra. As operações de informação no ciberespaço são a manifestação da evolução social e tecnológica, onde a capacidade de influenciar, desinformar e manipular a percepção é tão vital quanto o poder de fogo. O futuro dos conflitos será cada vez mais definido pela supremacia informacional.

Referências

Guedes, R. (s.d.). Sociedades da informação e do conhecimento. DCiber.org. Recuperado de https://dciber.org/sociedades-da-informacao-e-ao-conhecimento/.

Castells, M. (2005). A sociedade em rede (Vol. 1, No. 6). São Paulo: Paz e terra.

Hardt, M.; Negri, A.; Marques, C. Multidão: Guerra e Democracia na Era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2005.

Visacro, A. (2018). A guerra na era da informação. Editora Contexto.

Visacro, A. (2015). Guerra irregular: terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história. Editora Contexto.

Walker, M. (2024). Operações de informação: névoa de conceitos. Viseu.

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