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    Imagine seu computador mantendo um diário, como os que crianças costumavam usar para registrar o dia a dia, ou viajantes, comerciantes e nobres mantinham séculos atrás. Imagine como ele poderia ser. Segunda-feira, 7 de setembro. O usuário leu as notícias em cnn.com e bbc.co.uk (Safari). O usuário respondeu ao e-mail de John Kaufman sobre as datas de entrega e, em seguida, enviou a mesma pergunta à equipe de logística (Gmail). O usuário conferiu a lista de tarefas, verificou as atualizações rece
     

Histórico do computador do ChatGPT: os riscos e uma configuração segura

26 de Setembro de 2026, 09:39

Imagine seu computador mantendo um diário, como os que crianças costumavam usar para registrar o dia a dia, ou viajantes, comerciantes e nobres mantinham séculos atrás. Imagine como ele poderia ser.

Segunda-feira, 7 de setembro.

  • O usuário leu as notícias em cnn.com e bbc.co.uk (Safari).
  • O usuário respondeu ao e-mail de John Kaufman sobre as datas de entrega e, em seguida, enviou a mesma pergunta à equipe de logística (Gmail).
  • O usuário conferiu a lista de tarefas, verificou as atualizações recentes e definiu as prioridades do dia (Lista de tarefas).

Não estamos exagerando. É exatamente assim que é o novo diário do seu Mac. São vários arquivos de texto que qualquer aplicativo no computador pode ler, assim como qualquer pessoa diante do teclado. O recurso é chamado de Histórico do computador e foi lançado pela OpenAI em meados de agosto. No momento, ele só funciona no ChatGPT para Mac, requer uma assinatura Pro ou superior e está desativado por padrão. Segundo os desenvolvedores, o Histórico permite que o assistente de IA entenda rapidamente o contexto do seu trabalho e responda até a solicitações vagas, como: “envie um lembrete para quem estava trocando e-mails comigo sobre as entregas da semana passada”. É claro que essa conveniência tem um preço: seus dados são processados nos servidores da OpenAI e podem vazar do Mac, seja para um familiar intrometido ou para criminosos cibernéticos.

Como o Histórico do computador do ChatGPT funciona

Se o recurso se parece muito com o Recall, da Microsoft, ou com o Chronicle, anunciado anteriormente pela própria OpenAI, não é por acaso. Ambos foram desenvolvidos com o mesmo objetivo, mas usam métodos diferentes. Depois de o Recall se transformar em um desastre de relações públicas, a equipe responsável pelo Histórico do computador decidiu não fazer capturas de tela nem analisá-las constantemente. Em vez disso, o ChatGPT usa os recursos de Acessibilidade do macOS para ler o texto na tela e acompanhar ações: cliques do mouse, texto digitado nos campos, alternância entre aplicativos e outras ações desse tipo. Tudo isso é armazenado como um fluxo de dados brutos de atividade dentro do contêiner do ChatGPT (grupo de aplicativos), acessível somente pelo próprio ChatGPT ou por outros aplicativos aos quais você tenha concedido permissão. Em testes executados por pesquisadores forenses digitais, apenas duas horas de uso normal do computador geraram cerca de 3.500 desses eventos registrados.

Esses dados brutos permanecem no computador por até 48 horas. Durante esse período, o aplicativo do ChatGPT executa periodicamente sessões de chat ocultas em segundo plano, nas quais pede à IA que reúna eventos relacionados em um único relato. Essencialmente entradas de diário, esses resumos são arquivos de texto simples em uma pasta que qualquer aplicativo do Mac pode abrir: ~/.codex/memories/extensions/skysight/.

Quando você conversa com o assistente ou ativa recursos automatizados, essas anotações podem ser incluídas na conversa para gerar respostas mais contextualizadas. A OpenAI faz questão de destacar que o assistente pode identificar padrões nos seus fluxos de trabalho e se oferecer para automatizá-los, criando o que chama de “skills”, que reproduzem suas ações automaticamente.

Depois que um resumo fica pronto, os dados brutos de atividade que deram origem a ele são excluídos. A OpenAI afirma que não manterá essas conversas ocultas em segundo plano nem as usará para treinar a IA, exceto quando isso for exigido por lei. Já os resumos em estilo de diário inseridos nas suas conversas ficam armazenados nos servidores da OpenAI sob as mesmas regras aplicadas às suas conversas regulares e à memória do assistente. Portanto, as configurações de privacidade que você já definiu também se aplicam a eles.

O que o Histórico do computador pode ver, e o que você pode desativar

Como o recurso funciona inteiramente com ferramentas de acessibilidade, o ChatGPT só acessa o que o sistema operacional já permite que essas ferramentas acessem. Isso inclui títulos de janelas, blocos de texto, legendas de imagens no navegador, o texto que você digita em um campo e os nomes dos elementos da interface em que você clica. Assistindo a um vídeo? A IA não consegue ver o vídeo em si, mas pode ler o título da janela, o nome do site e a descrição do vídeo. Navegando por fotos? Ela vê os nomes de arquivos e pastas, mas não as imagens propriamente ditas. O áudio nunca é gravado nem armazenado, em nenhuma situação. Em uma chamada de vídeo, tudo o que é registrado é o título da janela da reunião, a menos que as legendas ao vivo estejam ativadas na própria chamada. Os campos de senha mascarados (exibidos como pontos) não são lidos, e, segundo a OpenAI, as janelas de navegação privada nunca são analisadas.

Uma diferença em relação ao Microsoft Recall é que o procedimento para ativar o recurso é apresentado de forma clara e detalhada, passo a passo. O Histórico do computador nunca se ativa sozinho. Você deve navegar até o menu de configurações, depois Integrações → Histórico do computador e ativá-lo manualmente depois de ler os avisos e as explicações. Além disso, o acesso à memória do agente precisa estar ativado para que o recurso funcione. A partir daí, você escolhe quais aplicativos e sites deseja que sejam monitorados e confirma uma série de solicitações de permissão do macOS.

Para empresas que usam assinaturas comerciais, são necessárias duas aprovações: primeiro, o administrador deve ativar o Histórico do computador para toda a organização; depois, cada funcionário deve ativá-lo individualmente.

A qualquer momento, você pode acessar Histórico do computador → Permissões e listar aplicativos e sites específicos a serem excluídos do rastreamento ou, inversamente, definir o ChatGPT para monitorar apenas uma lista limitada de sua escolha (Incluir somente estes aplicativos, Incluir somente estes sites).

Para ver a aparência do diário do seu computador, verifique Histórico do computador → Histórico. A partir daí, você pode excluir entradas individuais ou desativar diretamente na lista o monitoramento de aplicativos específicos.

Os riscos de usar o Histórico do computador do ChatGPT

Já abordamos os riscos do armazenamento centralizado de toda a atividade de uma pessoa em nosso artigo anterior sobre o Microsoft Recall, e a maior parte do que dissemos também se aplica ao Histórico do computador do ChatGPT.

  • Você pode presumir que suas conversas e seus e-mails são privados, protegidos por senhas e criptografia. Mas uma cópia das partes mais importantes dessas conversas fica armazenada em arquivos de texto simples, acessíveis a qualquer pessoa com acesso ao seu computador e a muitos outros aplicativos.
  • As pessoas com quem você troca mensagens não fazem ideia de que essa cópia adicional existe. Por exemplo, se ativarem mensagens que se autodestroem, mas não marcarem a janela do aplicativo de mensagens como privada, essa precaução não as protegerá.
  • Mesmo que você confie plenamente na OpenAI e não questione as promessas de privacidade, seus dados ainda podem ser roubados diretamente do computador por um infostealer. Os infostealers direcionados a Macs aumentaram muito nos últimos dois anos, portanto, esse não é um risco meramente hipotético. Além disso, quem cria esse tipo de malware age rápido e o mantém sempre atualizado para capturar qualquer novo tipo de dado que pareça promissor. Os arquivos da OpenAI são uma verdadeira mina de ouro para eles: tudo o que você fez, já resumido pela IA em algo fácil de ler. Embora não contenham senhas nem números de cartão de crédito, os detalhes disponíveis provavelmente são suficientes para criar um golpe de e-mail com falso pedido do chefe, de forma convincente.
  • E, se um colega de trabalho intrometido ou alguém da sua família conseguir acessar seu computador, não levaria mais que cinco minutos para ler o diário da sua vida profissional e pessoal.

Histórico do computador: desativá-lo ou apenas configurá-lo?

Recomendamos limitar o Histórico do computador ou desativá-lo completamente se seu trabalho envolver informações confidenciais. Isso se aplica especialmente a médicos, advogados e qualquer outra pessoa sujeita ao sigilo profissional ou que lide com dados pessoais ou médicos. O mesmo vale para quem mora com um familiar controlador demais ou trabalha em um escritório com colegas intrometidos.

Se nada disso se aplicar a você e você quiser experimentar a utilidade real dos recursos de pesquisa e das skills geradas automaticamente pela IA, veja como configurar o recurso com segurança.

  • Bloqueie o login do seu Mac. Desative o login automático e configure o Mac para exigir uma senha imediatamente após o protetor de tela ser ativado ou o computador sair do modo de repouso. Use uma senha forte e o Touch ID, e certifique-se de que a criptografia de disco do FileVault esteja ativada.
  • Configure suas exclusões. Adicione manualmente à lista de exclusão do Histórico do computador todos os aplicativos de mensagens que você usa para conversas privadas, além de aplicativos ou sites financeiros e qualquer outro local onde você armazene informações confidenciais.
  • Verifique regularmente. Pelo menos algumas vezes por semana, acesse as configurações do Histórico do computador para verificar quais aplicativos e sites ele está monitorando. Isso ajuda a identificar e remover quaisquer fontes de informações privadas que você tenha esquecido de excluir antes.

Seja como você configure o Histórico do computador, as duas formas mais comuns de seus dados acabarem nas mãos erradas, em qualquer Mac, são um infostealer para macOS roubá-los diretamente do computador ou você inserir suas informações em um site falso. Para se proteger contra ambos, certifique-se de usar um software de segurança completo no Mac, como o Kaspersky para macOS.

A IA pode criar riscos à privacidade que você talvez nunca tenha imaginado. Você pode ler mais sobre outros riscos em nossas outras postagens:

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  • Como proteger seus dados após uma separação | Blog oficial da Kaspersky Maxim Baybarin
    O fim de um relacionamento é uma grande ruptura: daquelas que viram a vida de cabeça para baixo. A rotina familiar, em que duas pessoas compartilhavam interesses, momentos e, muitas vezes, até o mesmo espaço físico, desmorona de repente, deixando cada uma em seu próprio mundo. Além disso, os casais não estão conectados apenas na vida real, mas também digitalmente. Assinaturas compartilhadas, endereços e senhas salvos, acesso a armazenamentos conjuntos na nuvem, tudo isso fazia parte do dia a dia
     

Como proteger seus dados após uma separação | Blog oficial da Kaspersky

24 de Julho de 2026, 09:00

O fim de um relacionamento é uma grande ruptura: daquelas que viram a vida de cabeça para baixo. A rotina familiar, em que duas pessoas compartilhavam interesses, momentos e, muitas vezes, até o mesmo espaço físico, desmorona de repente, deixando cada uma em seu próprio mundo.

Além disso, os casais não estão conectados apenas na vida real, mas também digitalmente. Assinaturas compartilhadas, endereços e senhas salvos, acesso a armazenamentos conjuntos na nuvem, tudo isso fazia parte do dia a dia. Superar emocionalmente o término pode levar bastante tempo, mas há medidas que você pode tomar desde já para reforçar sua segurança, mesmo que não ajudem a superar seu ex-parceiro.

Veja o que vale a pena verificar após uma separação, quais serviços devem ser desvinculados e por que isso é importante, mesmo quando o término acontece de forma amigável.

Higiene digital: seu seguro contra problemas

Revogar o acesso do seu ex-parceiro às suas contas online não é paranoia, é uma forma de proteger sua própria segurança. Uma separação não rompe automaticamente os vínculos digitais: todo acesso concedido durante o relacionamento continua ativo até que alguém o revogue manualmente. Na maioria das vezes, ninguém pretende explorar esse acesso de forma maliciosa. Ainda assim, ele pode resultar em situações constrangedoras ou até em um risco real de rastreamento.

Foi o que aconteceu com Aleta Dignard-Fung, de Las Vegas, que contou à NPR que, após terminar com o namorado, nem lhe ocorreu que ele ainda sabia sua senha do Spotify. Um dia, enquanto tomava banho ouvindo música, ela percebeu que sua playlist havia mudado de repente. O ex-parceiro tinha acessado a conta em outro dispositivo e estava reproduzindo as músicas que ele havia escolhido. “Foi como uma guerra no Spotify. Passamos uns 10 minutos tentando sobrescrever as músicas um do outro”, contou. Mas as consequências nem sempre são tão inofensivas.

Nessa mesma entrevista, a consultora de relacionamentos Susan Winter relatou um caso de sua própria prática profissional. Um de seus clientes simplesmente não conseguia superar a ex-namorada após o término. Os dois compartilhavam uma conta no OpenTable, serviço de reservas em restaurantes, e ela nunca revogou o acesso dele à conta. Ele passou a acompanhar todas as reservas feitas por ela: para onde ela iria, em que horário e para quantas pessoas. Era assim que ele acompanhava se havia alguém novo na vida dela.

Embora revelem comportamentos bastante diferentes por parte dos ex-parceiros, essas duas histórias têm a mesma origem: contas que nunca foram devidamente bloqueadas após o término. No primeiro caso, isso gerou uma situação constrangedora. No segundo, provocou ansiedade e uma sensação real de estar sendo observada. Para evitar que qualquer um desses cenários aconteça com você, vale a pena seguir uma lista de verificação simples.

Encerre as sessões do seu ex-parceiro

Nas configurações das suas redes sociais, aplicativos de mensagens, e-mail e outros serviços importantes, abra a lista de sessões ativas e encerre todas, exceto as dos dispositivos que você utiliza atualmente.

Redefina suas senhas

Atualize as senhas de todas as contas importantes que seu parceiro possa ter conhecido, por exemplo, caso você utilizasse uma data significativa como senha. Se você reutilizava a mesma senha em vários serviços, redefina-a em todos eles. Aproveite também para revisar as perguntas de segurança e o e-mail ou número de telefone de recuperação da conta, garantindo que nenhum deles ainda esteja vinculado ao seu ex-parceiro. Para evitar o trabalho de memorizar novas credenciais e, ao mesmo tempo, aumentar sua segurança, recomendamos usar um gerenciador de senhas, que gera uma senha forte e exclusiva para cada conta, além de armazená-las e sincronizá-las em todos os seus dispositivos. Assim, você só precisa se lembrar de uma única senha principal.

Verifique a autenticação de dois fatores e os dispositivos confiáveis

Assegure-se de que os códigos de verificação sejam enviados somente para o seu dispositivo. Remova os dispositivos do seu ex-parceiro da lista de dispositivos confiáveis. Você pode fazer isso nas configurações da sua conta Apple ou Google.

Desvincule contas Apple e Google compartilhadas

Se vocês compartilhavam uma conta Apple ou Google, desconecte-se dessa conta. Desative o Compartilhamento Familiar, o iCloud e os backups. Verifique também os álbuns de fotos compartilhados: tudo o que for adicionado automaticamente a eles também poderá ser visto pelo seu ex-parceiro.

Revise suas assinaturas

Se vocês compartilhavam assinaturas, como serviços de streaming ou planos familiares, cancele-as ou crie novas e vincule-as ao seu próprio cartão.

Verifique seus cartões bancários

Se o cartão do seu ex-parceiro estiver vinculado a uma conta de marketplace, aplicativo de entrega ou transporte por aplicativo que pertence a você, remova-o dos métodos de pagamento salvos. e o seu cartão estiver vinculado à conta da outra pessoa e você não tiver mais acesso a ela, a opção mais segura é solicitar a emissão de um novo cartão.

Revogue o acesso à sua casa inteligente

Revogue o acesso do seu ex-parceiro a câmeras, campainhas inteligentes com vídeo, rastreadores GPS e alto-falantes inteligentes. Se os dispositivos estiverem vinculados a uma conta compartilhada, redefina a senha ou transfira-os para sua conta pessoal.

Revise suas configurações de privacidade

erifique as configurações de privacidade das suas contas em diversos serviços e nas redes sociais usando nossa ferramenta online gratuita, Privacy Checker. Ela orienta você na configuração da privacidade de acordo com seu sistema operacional, plataforma e até mesmo seu navegador.

Se perceber sinais de perseguição

Procure organizações de apoio ou de assistência jurídica: elas podem ajudar você a definir o melhor curso de ação. Também vale a pena contar com o apoio de familiares e amigos próximos para enfrentar esse momento difícil. Em dispositivos Android, você pode usar nosso pacote de segurança com o recurso Quem está me espionando. Ele foi desenvolvido para ajudar a detectar rastreamento e perseguição, permitindo que você tome as medidas adequadas para se proteger. O recurso inclui:

  • Detecção de stalkerware. Identifica aplicativos criados para monitorar sua vida em segredo e coletar informações que você jamais gostaria de ver compartilhadas com outras pessoas.
  • Verificação de Dispositivo. Encontra rastreadores instalados de forma oculta que permitem que alguém acompanhe seus deslocamentos e saiba onde você está o tempo todo.
  • Controle de permissões. Mostra quais aplicativos têm acesso a permissões que podem facilitar a espionagem ou comprometer sua privacidade.

O que realmente pode ajudar, e o que pode piorar a situação durante esse momento tão difícil? Confira nossas outras postagens:

O que há de errado com o recurso NameTag da Meta e por que você deve desconfiar dele | Blog oficial da Kaspersky

16 de Julho de 2026, 10:00

As gigantes da tecnologia estão apostando mais uma vez nos óculos inteligentes. A ideia há muito tempo fascina escritores de ficção científica e seus maiores entusiastas: os habitantes do Vale do Silício. Muitos ainda se lembram do Google Glass, a primeira tentativa concreta de criar um dispositivo desse tipo, lançada em 2012. O projeto acabou entrando para a história como um dos poucos grandes fracassos do Google.

Após o fracasso retumbante do Google, outras gigantes da tecnologia, como Meta, Apple e Microsoft, deixaram de lado a ideia de óculos elegantes e leves para concentrar seus esforços em headsets de realidade virtual mais robustos. Um dos principais motivos para essa mudança foi que a tecnologia disponível na década de 2010 ainda não era suficientemente avançada para oferecer recursos de alto desempenho e uma boa autonomia de bateria em um par de óculos compacto.

Desde então, muita coisa mudou. Agora, as gigantes da tecnologia deram uma guinada e voltaram a investir em óculos inteligentes para uso cotidiano. Em junho deste ano, por exemplo, a Snap (empresa por trás do Snapchat) lançou uma nova versão de seus óculos, chamada SPECS. Há rumores de que a Apple também poderá apresentar sua própria versão dessa tecnologia ainda este ano.

Por enquanto, porém, a parceria entre a Ray-Ban e a Meta é a líder incontestável do mercado. Em 2025, as empresas lançaram seus óculos inteligentes mais avançados, vendendo mais de 7 milhões de unidades somente naquele ano.

No entanto, desde o início de 2026, os óculos Ray-Ban Meta vêm sendo alvo de uma série de polêmicas negativas. Todas giram em torno de um recurso que permitiria à câmera dos óculos reconhecer rostos em seu campo de visão. Quando ativado, o sistema notificaria o usuário sempre que identificasse uma pessoa.

O que são exatamente os óculos Ray-Ban Meta?

A Ray-Ban e a Meta uniram forças pela primeira vez em 2020. Na época, esses óculos elegantes e de alta tecnologia foram concebidos como um complemento para o Metaverso, o ambicioso projeto de realidade virtual de Mark Zuckerberg. No fim das contas, porém, os óculos sobreviveram ao projeto para o qual foram criados. Mas não vamos jogar mais sal na ferida de Zuckerberg. Em 2021, Ray-Ban e Meta lançaram sua primeira colaboração: os Ray-Ban Stories. Dois anos depois, a nova geração chegou ao mercado com um nome mais simples: Ray-Ban Meta. Em 2025, o próprio Mark Zuckerberg apresentou os Ray-Ban Meta Gen 2, equipados com inteligência artificial. É essa versão que vamos analisar.

Mark Zuckerberg apresenta os Ray-Ban Meta Gen 2

Mark Zuckerberg usando os óculos Meta Ray-Ban Display durante a apresentação dos Ray-Ban Meta Gen 2, em 2025. Fonte

Diferentemente dos primeiros Ray-Ban Meta, a geração Gen 2 foi posicionada como um dispositivo voltado para atividades físicas e para o uso cotidiano. Inicialmente, as empresas ofereceram dois modelos de armação, Wayfarer e Headliner, disponíveis em várias cores. As lentes estão disponíveis nas versões transparentes, escuras (para óculos de sol) ou fotocromáticas. Também era possível adquirir lentes de grau mediante pagamento adicional.

Os dois primeiros modelos Ray-Ban Meta: Wayfarer e Headliner

No lançamento, os Ray-Ban Meta estavam disponíveis em dois estilos de armação: Wayfarer (acima) e Headliner (abaixo). Source 1 and Source 2

Posteriormente, a Meta ampliou a linha com novas opções de armação, incluindo os Oakley Meta HSTN e Oakley Meta Vanguard (a Oakley é outra marca de óculos pertencente à EssilorLuxottica, a mesma empresa controladora da Ray-Ban). Independentemente do modelo da armação, todos esses dispositivos reúnem o mesmo conjunto de funcionalidades principais:

  • Captura de fotos e vídeos em primeira pessoa
  • Reprodução de músicas, podcasts e outros conteúdos de áudio
  • Realização de chamadas telefônicas
  • Envio e recebimento de mensagens usando comandos de voz
  • Tradução de fala em tempo real, com suporte a diversos idiomas
  • Conversão de fala em texto
  • Leitura em voz alta de notificações e mensagens
  • Criação de notas de voz e lembretes
  • Transmissão de vídeo em primeira pessoa durante chamadas de vídeo do WhatsApp e do Messenger
  • Navegação em mapas com orientações por voz
  • Respostas a perguntas do usuário sobre o ambiente ao redor e os objetos em seu campo de visão

Os óculos inteligentes da Meta funcionam por meio de vários componentes integrados. Em primeiro lugar, contam com uma câmera capaz de capturar fotos e gravar vídeos exatamente a partir da linha de visão do usuário. Em segundo lugar, as hastes abrigam alto-falantes abertos (open-ear). Eles permitem ouvir músicas, receber orientações de navegação, atender chamadas e escutar as respostas da Meta AI sem bloquear os sons ao redor com fones intra-auriculares, uma vantagem discutível para quem valoriza a privacidade do áudio.

Por fim, os óculos possuem vários microfones integrados, utilizados para chamadas telefônicas, reconhecimento de comandos de voz e interação com o assistente de inteligência artificial. O que a maioria dos óculos inteligentes da Meta não possui, entretanto, é uma tela. Apenas o modelo mais caro e avançado da linha, o Meta Ray-Ban Display, conta com um visor integrado.

Todas as fotos e vídeos capturados pela câmera dos óculos, bem como as configurações do dispositivo, são armazenados no aplicativo complementar Meta AI, que sincroniza os óculos com um smartphone. É justamente a combinação entre câmera, microfones, alto-falantes e o aplicativo Meta AI que permite ao dispositivo analisar o ambiente ao redor e responder, em tempo real, às solicitações do usuário.

Em comparação com dispositivos como o Apple Vision Pro, os dispositivos da Meta são relativamente acessíveis, custando cerca de US$ 400 a US$ 500. Além disso, a empresa lançou recentemente uma nova linha sob sua própria marca, chamada Meta Glasses, com preço inicial de US$ 299. Com preços nessa faixa, a possibilidade de esses dispositivos se tornarem populares em larga escala deixou de ser ficção científica.

É justamente por isso que os relatos sobre o recurso NameTag são ainda mais alarmantes. Segundo jornalistas e pesquisadores, essa funcionalidade foi projetada para reconhecer pessoas que entram no campo de visão da câmera dos óculos. Vamos entender melhor como isso funciona.

NameTag: o recurso que “não existe”

Informações vazadas de documentos internos da Meta sobre o desenvolvimento de um recurso de reconhecimento facial para os óculos inteligentes da empresa vieram a público, por uma coincidência sinistra, na sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026. Os documentos revelam que o recurso, chamado internamente de NameTag, utilizaria o assistente de inteligência artificial integrado da Meta para identificar pessoas capturadas pelo campo de visão da câmera dos óculos e fornecer ao proprietário do dispositivo informações sobre elas.

De acordo com o vazamento, a Meta avaliou duas formas de operar o NameTag. A primeira permitiria reconhecer apenas pessoas que já fazem parte dos contatos existentes do usuário nos serviços da Meta. A segunda seria muito mais abrangente, possibilitando identificar qualquer pessoa com um perfil público nas plataformas sociais da empresa: Instagram, Facebook e, potencialmente, WhatsApp e Messenger.

Oakley Meta HSTN

Os Oakley Meta HSTN, um dos modelos de óculos inteligentes da linha, a partir de US$ 399. Source

Se tudo isso causa arrepios, não se preocupe. A gigante da tecnologia, conhecida por seu compromisso “supostamente inabalável” com a privacidade dos usuários, foi rápida em divulgar uma declaração tranquilizadora:

“Nossos concorrentes oferecem esse tipo de produto com reconhecimento facial; nós não oferecemos. Se algum dia lançarmos um recurso desse tipo, adotaremos uma abordagem muito cuidadosa antes de disponibilizá-lo ao público”.

A prova dessa abordagem supostamente cuidadosa surgiu apenas alguns meses depois. Em junho de 2026, a Wired informou que a Meta havia incorporado discretamente a tecnologia de reconhecimento facial dos seus óculos inteligentes ao aplicativo Meta AI. Segundo os jornalistas, o código foi sendo inserido aos poucos no software ao longo de vários meses, a partir de janeiro de 2026.

Como funciona o recurso que supostamente não existe

Quando a reportagem investigativa foi publicada, o NameTag ainda não estava disponível para os usuários. No entanto, de acordo com a Wired, o código necessário para fazê-lo funcionar já estava presente no aplicativo complementar Meta AI, utilizado pelos proprietários dos óculos inteligentes da empresa e instalado em mais de 50 milhões de smartphones.

O NameTag utiliza três modelos de inteligência artificial para realizar essa tarefa.

  • O primeiro detecta rostos no campo de visão da câmera.
  • O segundo isola e recorta esses rostos.
  • O terceiro converte esses rostos em impressões biométricas únicas.

Segundo a Wired, os três modelos já haviam sido baixados dos servidores da Meta e estavam armazenados nos dispositivos dos usuários. Após o lançamento oficial do recurso, o aplicativo utilizaria essa impressão biométrica para compará-la com um banco de dados de impressões semelhantes armazenado no smartphone do proprietário dos óculos.

Além disso, os jornalistas afirmam que esse banco de dados já estava configurado para buscar atualizações em tempo real da Meta. É plausível imaginar que esse banco de dados pudesse ser criado a partir de perfis públicos nas plataformas da Meta, incluindo fotos que os próprios usuários enviam ao Instagram e ao Facebook. Por enquanto, porém, isso é apenas uma hipótese. Como o recurso oficialmente “não existe”, a Meta não explicou publicamente como esses perfis seriam criados.

Quando uma correspondência fosse encontrada, o sistema notificaria o usuário de que uma pessoa havia sido identificada. No entanto, a tecnologia não simplesmente ignoraria os rostos que não conseguisse identificar. Essas imagens seriam automaticamente recortadas, indexadas e armazenadas em uma pasta separada chamada “Pending” (“Pendente”).

Alguns elementos da interface do aplicativo Meta AI, relacionados ao NameTag, foram implementados e ficaram acessíveis aos usuários na atualização de maio de 2026. Nessa versão, o recurso recebeu o nome muito mais brando de “Connections” (“Conexões”). Segundo sua descrição, ele foi criado para ajudar os usuários a “lembrar das pessoas que encontraram”.

Oakley Meta Vanguard

Os Oakley Meta Vanguard, um dos modelos mais caros da linha de óculos inteligentes. Os preços começam em torno de US$ 499. Source

É evidente essa tecnologia é um prato cheio para perseguidores, golpistas, pessoas mal-intencionadas e interessados em desenterrar informações comprometedoras sobre desconhecidos. Bastaria um simples olhar para revelar a identidade digital de alguém e todos os dados associados a ela.

As implicações para a privacidade são ainda mais amplas. A possibilidade de permanecer anônimo entre desconhecidos sempre foi considerada algo natural. Tecnologias como o NameTag nos aproximam de uma realidade de vitrine permanente, na qual o rosto se torna um identificador universal e qualquer encontro casual pode desencadear uma verificação instantânea de antecedentes digitais.

Dar acesso em massa a esse tipo de tecnologia é exatamente o tipo de ideia genial que se esperaria desses tech bros que ainda não conseguem fazer ninguém conversar com eles em um bar. Felizmente, a revelação da existência do NameTag e a reação negativa da opinião pública fizeram com que o código responsável pelo recurso desaparecesse da versão mais recente do aplicativo. Pelo menos, por enquanto.

O recurso desapareceu, mas as perguntas continuam

No dia seguinte à publicação da reportagem da Wired, a Meta lançou uma nova versão do aplicativo, removendo praticamente todo o código relacionado ao NameTag. O vice-presidente de Comunicação da empresa, Andy Stone, reforçou a posição oficial, afirmando que os jornalistas deveriam desconsiderar as evidências de que tal funcionalidade existia. Enquanto isso, especialistas em privacidade alertaram que a Meta poderia restaurar o código do NameTag nos aplicativos dos usuários com a mesma facilidade com que o removeu. Ainda é cedo demais para baixar a guarda.

Óculos inteligentes Meta Fury

O Meta Fury é um dos modelos da nova linha Meta Glasses, com preço inicial de US$ 299. Diferentemente da maioria dos dispositivos anteriores da empresa, esses óculos são comercializados diretamente sob a marca Meta. Source

Algumas semanas depois, a Wired publicou outra reportagem reveladora sobre o NameTag e o reconhecimento facial. Os jornalistas conseguiram obter um contrato de licenciamento firmado entre a Meta e a Rank One Computing, empresa especializada em tecnologias de reconhecimento facial para órgãos policiais e agências militares dos Estados Unidos. Segundo a reportagem, entre seus clientes estariam o Naval Criminal Investigative Service (NCIS), o U.S. Special Operations Command (USSOCOM) e diversos departamentos de polícia.

A Meta adquiriu os direitos de uso da tecnologia de reconhecimento facial da Rank One Computing, incluindo seu sistema de “detecção de presença real”, capaz de distinguir uma pessoa real de uma fotografia, vídeo ou máscara. De acordo com os termos do contrato, o software pode operar com um banco de dados de até 10 milhões de perfis biométricos. Antes da remoção do NameTag, a Wired informou que a tecnologia de reconhecimento facial da Rank One Computing e seus componentes de software já estavam integrados ao aplicativo Meta AI, embora permanecessem inativos e indisponíveis aos usuários.

Há anos, o uso de tecnologias de reconhecimento facial por órgãos de segurança pública desperta intensos debates sobre os limites aceitáveis da vigilância. Por isso, a perspectiva de capacidades semelhantes chegarem a um dispositivo de consumo que qualquer pessoa possa comprar e utilizar é, para dizer o mínimo, controversa, especialmente quando ele pode associar o rosto de um desconhecido qualquer aos seus perfis digitais. Tanto a Meta quanto a Rank One Computing se recusaram a comentar a parceria.

Óculos inteligentes Meta Ray-Ban Display

O Meta Ray-Ban Display, o único modelo da linha equipado com câmera e visor integrado. Source

Como preservar o que resta da sua privacidade em um mundo distópico

A ideia de que tecnologias militares estejam sendo incorporadas a dispositivos de consumo já é suficiente para causar arrepios em qualquer pessoa. Infelizmente, precisamos encarar a realidade: proteger-se de óculos capazes de realizar reconhecimento facial será uma tarefa bastante difícil. Mas isso não significa que você não deva tentar.

No momento, não existe nenhuma forma de optar por não ter seu rosto escaneado pelos óculos da Meta. Há, porém, uma maneira de detectar esses pequenos espiões nas proximidades. Um entusiasta de tecnologia chamado Yves Jeanrenaud desenvolveu um aplicativo que alerta os usuários sempre que detecta óculos inteligentes nas proximidades. Chamado Nearby Glasses, o aplicativo já está disponível para Android e iOS.

O Nearby Glasses detecta os óculos da Meta e da Snap identificando os sinais Bluetooth que esses dispositivos transmitem para se comunicar com outros dispositivos. Evidentemente, esse método não é infalível e pode gerar alguns falsos positivos. Ainda assim, o aplicativo oferece um alerta útil de que pode haver, nas proximidades, um dispositivo capaz de gravar você discretamente e verificar o ambiente ao seu redor.

Aplicativo Nearby Glasses

O aplicativo Nearby Glasses alerta os usuários sobre a presença de óculos inteligentes da Meta ou da Snap nas proximidades ao detectar os sinais Bluetooth emitidos por esses dispositivos. Source

Se você está especialmente preocupado com sua privacidade, instalar um aplicativo como esse é uma medida sensata. Ele pode ser especialmente útil para pessoas que pertencem a grupos mais vulneráveis, como vítimas de perseguição, profissionais do sexo ou imigrantes em situação irregular.

Para quem ainda não está pronto para adotar uma postura totalmente paranoica, recomendamos configurar suas contas da Meta como privadas. É verdade que isso não impedirá que os óculos inteligentes capturem seu rosto, nem representa uma proteção absoluta contra um eventual reconhecimento facial. No entanto, restringir o acesso às suas fotos, listas de contatos e outras informações pessoais reduz a quantidade de dados que poderiam ser usados para identificá-lo e traçar seu rastro digital.

Se você não tiver certeza de quão fortes são as configurações de segurança das suas redes sociais, recomendamos verificar nossa ferramenta on-line gratuita – a Privacy Checker. Ela oferece um passo a passo para ajustar as configurações de privacidade e segurança em redes sociais e plataformas digitais, ajudando a reduzir a quantidade de informações pessoais expostas online para que desconhecidos vejam.

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