Novos riscos nas infraestruturas críticas de água e energia
Sinopse
A proteção de infraestruturas críticas depende de muito mais do que criptografar dados e impedir acessos não autorizados. Em ambientes industriais, uma comunicação que não chega ao destino, um comando que sofre atraso ou um equipamento de rede comprometido podem interferir diretamente na operação de bombas, válvulas, sistemas de distribuição elétrica e outros processos físicos.
Motivação
A crescente integração entre redes industriais, sistemas corporativos e serviços em nuvem amplia essas dependências e introduz novos desafios para a segurança cibernética. O problema não está apenas em quem consegue entrar em um sistema, mas também em quem pode interferir nas comunicações das quais esse sistema depende para funcionar.
Uma pesquisa divulgada pelo Homeland Security Newswire, em 16 de outubro de 2026, ilustra esse cenário ao descrever uma técnica denominada ICS-Sniper, direcionada às comunicações de sistemas industriais. O estudo oferece uma oportunidade para discutir os limites dos controles tradicionais e a importância de integrar arquitetura segura, inteligência de ameaças e resiliência operacional.
A superfície de ataque não termina no perímetro da planta
Sistemas de controle industrial, conhecidos como ICS (Industrial Control Systems), são utilizados para monitorar e controlar processos físicos. Entre eles estão os sistemas SCADA (Supervisory Control and Data Acquisition), além dos sistemas aplicados em controladores lógicos programáveis (PLC), unidades terminais remotas (RTU) e interfaces homem-máquina (HMI).
Esses componentes desempenham funções diferentes, mas dependem da troca confiável e tempestiva de informações. Sensores fornecem dados sobre o processo, controladores executam lógicas de operação e sistemas de supervisão permitem que operadores acompanhem condições e intervenham quando necessário.
Historicamente, muitos ambientes industriais foram projetados para operar de maneira isolada. A necessidade de integração com sistemas corporativos, acesso remoto, manutenção especializada e serviços em nuvem ampliou a conectividade e, consequentemente, a superfície de ataque. Essa transformação não significa que a conectividade deva ser eliminada. Ela exige que cada conexão seja compreendida, justificada, monitorada e protegida de acordo com o risco operacional.
Um roteador, um gateway industrial ou um equipamento utilizado para conectar uma planta a um serviço externo pode representar um ponto relevante nessa arquitetura. Com esse componente comprometido, o impacto não precisa se limitar ao equipamento, pois pode alcançar as comunicações necessárias ao funcionamento de processos físicos. A segurança industrial, portanto, precisa considerar não apenas os ativos finais, mas também os caminhos pelos quais circulam os dados e os comandos que sustentam a operação.
ICS-Sniper: quando o tráfego criptografado se torna um ponto de exploração
A notícia publicada pelo Homeland Security Newswire apresenta uma técnica de ataque chamada ICS-Sniper, associada à possibilidade de interferir seletivamente nas comunicações entre instalações industriais e sistemas de monitoramento ou controle conectados à nuvem. O cenário descrito depende do comprometimento prévio de um roteador situado no caminho da comunicação. A partir desse ponto, o atacante pode observar características do tráfego, como o tamanho dos pacotes e os momentos em que são transmitidos, mesmo quando o conteúdo está criptografado.
Essas características podem revelar padrões de comunicação. Quando determinadas mensagens aparecem de maneira previsível, torna-se possível tentar identificá-las por seus padrões externos e interferir seletivamente em sua entrega. O aspecto relevante é que esse tipo de ataque não exige necessariamente a quebra da criptografia. O objetivo é interferir na disponibilidade da comunicação, e não, obrigatoriamente, ler ou modificar o conteúdo protegido.
Segundo o artigo, testes laboratoriais com modelos de sistemas de tratamento de água demonstraram efeitos operacionais associados à interrupção de comunicações, incluindo atraso no início do bombeamento de água tratada e prolongamento do estado de abertura de uma válvula simulada. Esses resultados devem ser interpretados com precisão. Trata-se de efeitos demonstrados experimentalmente, não de evidência de que a mesma técnica tenha sido utilizada contra uma instalação real. A possibilidade de reproduzir consequências semelhantes depende da arquitetura, dos protocolos, das salvaguardas existentes e das características do processo industrial.
Ainda assim, a pesquisa evidencia um problema importante, pois proteger o conteúdo de uma mensagem não garante que ela chegará ao destino no momento necessário.
Do pacote de rede ao impacto físico
Em ambientes industriais, a relação entre comunicação digital e processo físico é direta. Uma mensagem pode carregar uma medição, uma solicitação de atuação, uma atualização de estado ou uma informação necessária à coordenação de diferentes componentes. A perda ou o atraso dessas mensagens pode produzir efeitos distintos, conforme o processo envolvido. Uma estação de tratamento pode perder temporariamente a capacidade de acompanhar determinadas variáveis. Um sistema de bombeamento pode operar com informações desatualizadas. Em instalações elétricas, a perda de comunicação entre equipamentos pode comprometer funções de supervisão e coordenação. Esses efeitos não são automáticos. Sistemas industriais bem projetados possuem alarmes, intertravamentos, proteções independentes e mecanismos de operação segura. O impacto depende da função afetada, do tempo de indisponibilidade, das dependências entre componentes e da capacidade de resposta do sistema.
Para a análise de riscos, é útil representar a possível cadeia de consequências:
- Equipamento de comunicação comprometida
- Interferência no Fluxo de Mensagens
- perda de informação ou coordenação
- alteração das condições operacionais
- possível impacto sobre o serviço.
Essa cadeia é um modelo de análise, não uma sequência inevitável. Seu valor está em ajudar a identificar onde uma falha cibernética pode atravessar a fronteira entre o ambiente digital e o processo físico.
Por essa razão, a avaliação de segurança precisa incluir consequências operacionais, e não apenas a quantidade de dados expostos ou o número de sistemas acessados.
Modelo Purdue e ISA/IEC 62443
Uma das referências utilizadas para compreender a organização de redes industriais é o modelo Purdue, associado à arquitetura de referência de sistemas de produção. Ele representa diferentes níveis funcionais, desde os dispositivos de campo e controladores até a supervisão, as operações industriais e os sistemas corporativos.
Em arquiteturas atuais, uma zona desmilitarizada industrial, ou DMZ industrial, pode ajudar a intermediar a troca de informações entre o ambiente industrial e as redes corporativas ou externas. Essa separação reduz a necessidade de conexões diretas e permite aplicar controles específicos a cada fluxo. Entretanto, a simples existência de uma DMZ não garante segurança. Regras de comunicação inadequadas, equipamentos vulneráveis e acessos administrativos excessivos podem preservar caminhos de ataque.
A ISA/IEC 62443 complementa essa abordagem ao estabelecer princípios e requisitos para a segurança de sistemas de automação e controle industrial. Entre seus conceitos estão a avaliação de riscos, a definição de zonas e condutos e a aplicação de requisitos de segurança compatíveis com as necessidades de cada ambiente. Na prática, algumas medidas merecem atenção:
- Identificar e documentar os equipamentos que conectam a planta a redes externas e serviços em nuvem.
- Restringir comunicações aos fluxos efetivamente necessários para a operação.
- Proteger interfaces administrativas e acessos remotos com autenticação forte, privilégios mínimos e registros de atividade.
- Monitorar alterações de configuração, atualizações de firmware e comportamentos anormais nos equipamentos de rede.
- Avaliar caminhos alternativos de comunicação e os riscos introduzidos por mecanismos de redundância.
A arquitetura deve ser analisada de ponta a ponta. Segmentar a rede reduz a exposição e limita a propagação de incidentes, mas precisa ser combinado com monitoramento, gestão de vulnerabilidades e mecanismos de continuidade operacional.
Inteligência de Ameaças Cibernéticas
A Inteligência de Ameaças Cibernéticas (CTI) contribui para transformar informações sobre técnicas, vulnerabilidades e comportamentos adversários em decisões defensivas. No contexto industrial, isso exige compreender as características dos equipamentos, os protocolos utilizados, as dependências entre sistemas e as consequências que uma interrupção pode produzir.
O MITRE ATT&CK for ICS oferece uma base para organizar táticas e técnicas associadas a ambientes de controle industrial. Sua matriz inclui comportamentos relacionados ao bloqueio de comunicações, à perda de disponibilidade e à interferência no controle de processos. Essa referência pode apoiar a construção de hipóteses de investigação e a identificação de lacunas de detecção. Entretanto, a associação de um incidente a uma técnica específica exige evidências. Uma falha de comunicação, isoladamente, não comprova a presença de um adversário.
Para investigar situações suspeitas, a CTI pode orientar a correlação de diferentes fontes de informação:
- Registros de roteadores, firewalls e gateways industriais.
- Alterações de configuração e sessões administrativas não habituais.
- Perdas, atrasos ou interrupções de pacotes fora dos padrões operacionais.
- Alarmes de processo e divergências entre comandos enviados e estados observados.
- Eventos de autenticação e atividades incomuns em acessos remotos.
- Informações sobre vulnerabilidades conhecidas dos equipamentos envolvidos.
A análise precisa distinguir fatos confirmados, hipóteses e lacunas de informação. Essa disciplina evita conclusões precipitadas e ajuda a direcionar a coleta de evidências para as questões mais relevantes.
Outro ponto importante é a relação entre segurança cibernética e engenharia de controle. Uma anomalia de rede pode ter origem em uma falha técnica, uma mudança operacional legítima ou uma ação maliciosa. A investigação deve considerar essas possibilidades antes de atribuir a causa do evento.
Resiliência operacional: detectar, conter e continuar operando
A proteção de infraestruturas críticas precisa ir além da prevenção. Mesmo com controles adequados, falhas de equipamentos, erros de configuração e incidentes cibernéticos podem ocorrer. A capacidade de manter condições seguras e recuperar os serviços deve fazer parte do planejamento.
Quatro frentes ajudam a estruturar essa capacidade.
- Prevenção. Manter inventários atualizados, avaliar vulnerabilidades, reduzir conexões desnecessárias e proteger os equipamentos que transportam comunicações operacionais. A gestão de riscos deve considerar tanto os ativos industriais quanto os componentes de rede e os serviços externos dos quais dependem.
- Detecção. Estabelecer uma linha de base do comportamento normal das comunicações e correlacionar dados de rede com eventos do processo. A detecção de atrasos, perdas seletivas de mensagens e divergências entre comandos e estados físicos pode ajudar a identificar incidentes que não seriam percebidos por ferramentas tradicionais de segurança de TI.
- Contenção. Definir procedimentos para isolar componentes comprometidos sem provocar riscos adicionais ao processo. A decisão de interromper uma conexão industrial precisa considerar as consequências para a segurança física, a continuidade do serviço e os mecanismos de proteção existentes.
- Continuidade e recuperação. Testar procedimentos de operação local, redundância, restauração de configurações e recuperação de equipamentos. Os testes devem verificar se as alternativas de contingência realmente mantêm o processo em condições seguras e se a retomada da conectividade não reintroduz o problema.
Essas medidas precisam ser desenvolvidas em conjunto por profissionais de segurança cibernética, engenharia, operação e gestão de riscos. Em ambientes industriais, uma resposta tecnicamente correta do ponto de vista da rede pode ser inadequada se desconsiderar os requisitos do processo físico.
O contexto brasileiro
No Brasil, a proteção de infraestruturas críticas deve ser analisada à luz da Política Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas, da Estratégia Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas e dos instrumentos aplicáveis a cada setor.
No setor elétrico, a Resolução Normativa ANEEL nº 964/2021 constitui uma referência regulatória de segurança cibernética para os agentes abrangidos por suas disposições. Sua aplicação deve ser examinada em conjunto com os requisitos e procedimentos vigentes do setor.
Para sistemas de água e saneamento, as referências técnicas internacionais, como os materiais da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), podem apoiar avaliações de risco, preparação para incidentes e planejamento de recuperação. Sua utilização no Brasil deve respeitar as características regulatórias e operacionais locais. A adoção de referências internacionais não substitui a análise das obrigações nacionais. Ela oferece, contudo, uma base técnica para identificar boas práticas e estruturar controles compatíveis com o risco.
O desafio é integrar governança, engenharia e segurança cibernética em um modelo de proteção que considere a continuidade dos serviços essenciais como um objetivo operacional.
Conclusão
A pesquisa sobre o ICS-Sniper chama atenção para uma dimensão frequentemente subestimada da segurança industrial: a possibilidade de interferir em comunicações sem necessariamente quebrar a criptografia ou comprometer diretamente os controladores.
O caso reforça que a segurança de infraestruturas críticas depende de múltiplas camadas de proteção. Criptografia, segmentação, segurança dos equipamentos de rede, monitoramento comportamental e mecanismos de continuidade possuem funções complementares. Nenhum desses controles, isoladamente, assegura a disponibilidade de um processo industrial. A proteção precisa considerar os caminhos de comunicação, as dependências tecnológicas e as consequências físicas que uma falha pode produzir.
Nesse cenário, a CTI oferece uma contribuição importante ao conectar pesquisas, vulnerabilidades, técnicas adversárias e evidências operacionais. Seu valor está em apoiar decisões fundamentadas, priorizar riscos e orientar a investigação antes que uma anomalia se transforme em uma interrupção relevante.
A questão estratégica não é apenas saber se os dados estão protegidos durante a transmissão. É também verificar se os sistemas conseguem reconhecer uma comunicação comprometida, responder com segurança e preservar a continuidade das operações.
Em infraestruturas críticas, a segurança cibernética precisa proteger não apenas a informação que circula, mas também a capacidade de manter os serviços essenciais funcionando de maneira segura e confiável.
Referências
- Homeland Security Newswire. Researchers uncover new cyber threat to water and energy networks. 16 out. 2026.
- National Institute of Standards and Technology (NIST). Guide to Operational Technology (OT) Security. Special Publication 800-82, Revision 3, setembro de 2023.
- International Society of Automation (ISA) / International Electrotechnical Commission (IEC). Série ISA/IEC 62443 — Security for Industrial Automation and Control Systems.
- MITRE. ATT&CK for Industrial Control Systems. Base de conhecimento sobre táticas e técnicas de adversários em ambientes industriais.
- U.S. Environmental Protection Agency (EPA). Cybersecurity for the Water Sector. Orientações para avaliação de riscos, preparação e resposta a incidentes em sistemas de água e saneamento.
- Brasil. Decreto nº 9.573, de 22 de novembro de 2018. Política Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas.
- Brasil. Decreto nº 10.569, de 9 de dezembro de 2020. Estratégia Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas.
- Brasil. Decreto nº 11.200, de 15 de setembro de 2022. Plano Nacional de Segurança de Infraestruturas Críticas.
- Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Resolução Normativa nº 964, de 14 de dezembro de 2021. Política de segurança cibernética a ser adotada pelos agentes do setor de energia elétrica.

